eu poderia reter ou desprender esse contentamento desmedido que me lava a cara vez ou sempre, desde que apagamos os nomes e as impressões murais. eu retenho porque sou egoísta, quero tudo cem por cento, bebo todo o líquido, raspo o prato, vou até o osso quando sinto o deleite, o cheiro, a brasa e o vermelho por dentro e depois largo, como se nada nunca me pertencesse e depois agarro, como se tudo sempre. wise men say, only fools rush in, eu desprendo porque prefiro as asas, sou da terra e amo o ar, a água, o espaço, o desnível, a promessa, as the river flows gently to the sea. deixo fluir, mas é que meu corpo prende, meu ventre pulsa, meus ombros doem ao sentir a perda. porque nunca perdi. esse foi o erro de exigir demais, eu poderia ter competido mais, lutado, perdido, mas não aceitava o desfecho contra e nem zero a zero, era mais fácil a arquibancada. difícil o visual do teu semblante novo, olhos brilhantes, mordendo o lábio de canto, abrindo os braços ante tua necessidade, dessa paixão sorrateira, bandida, oculta em minha história de amor. sou general cercando o campo de guerra, arma em punho, bradando, suada e de peito nu. mas agora canto, recanto a rosa, minha flor. releio o trem lotado, as malas e os assuntos ofuscados pela partida. e sem demora tomei o susto que veio em soluço, "quisera ser eu", disse – lembra? guarda ainda os postais? as falas gravadas quando cheguei ao topo da montanha narrando o frio, o rarefeito e o fincar das sete cores? ah, tu lembras quanto sorrimos frente à conquista das horas? esquece, corta! por pouco me senti insana agora, "são essas literaturas" - diz minha mãe, "tu vive as avessas" - complementa. e eu grito lá doutro lado, "é teatro mãe, te-a-tro!". o copo tombou sem querer e deixei cigarro apagar no assoalho de madeira, lá vem outra marca a contar-me os dias de visita noturna à essa sala de ninguém. tu lembras? darling so we go, some things were meant to be. take my hand, take my whole life too, 'cause i can't help falling in love with you. sim, minha mãe tem até razão, não é te-a-tro não, são essas literaturas a revirar-me a ficção.
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